Semana Universitária 2021 - Através da Câmera (3h/aula) - Oficina Gratuita





Olá! Através da Câmera aconteceu na Semana Universitária da UnB de 2021. 

É a nossa versão gratuita e gravada da oficina! Espero que curta!

Ahh e manda pra alguém que você acha que pode se interessar! 

Aguardo os comentários aqui nessa página! :D


Encontro 01


Encontro 2


Encontro 3


Resumo feito com ajuda de IA:

Em sua versão online, a oficina Através da Câmera se organizou menos como um curso técnico convencional e mais como um processo de sensibilização do olhar. Ao longo de três encontros, a proposta conduziu os participantes a perceber a fotografia não apenas como captura de imagens, mas como prática de atenção, leitura do ambiente e construção de sentido. Desde o início, a oficina foi apresentada como um exercício de “atravessamento” da imagem: atravessar a tela, atravessar a foto do outro e ultrapassar a percepção apressada com que normalmente se consome o visível. A atividade também foi vinculada a uma investigação que dialoga com as artes cênicas, especialmente com a consciência do corpo e do olhar em cena.

O primeiro movimento da oficina consistiu em deslocar os participantes de uma relação automática com a câmera para uma relação mais reflexiva com a própria percepção. Em vez de começar por regras de composição ou por instruções técnicas isoladas, o encontro inicial abriu espaço para que cada pessoa falasse de sua própria história com a fotografia. Nessas falas, surgiram compreensões bastante significativas: a fotografia como portal para o tempo, como âncora da memória, como linguagem capaz de contar histórias urbanas, como registro de afetos familiares e como campo de observação do mundo natural. A oficina reconheceu essas motivações pessoais não como algo periférico, mas como ponto de partida legítimo para a formação do olhar fotográfico.

Um dos aspectos mais singulares da proposta foi a incorporação de exercícios corporais e perceptivos. O olhar foi tratado como algo que também se educa fisicamente. Por isso, os encontros incluíram massagens no rosto, relaxamento da musculatura facial, alongamentos oculares, deslocamentos do foco visual e experimentações com direção do olhar. Esses procedimentos não apareceram como curiosidade acessória, mas como parte central do método: desacelerar, expandir o campo de atenção e romper a rigidez com que normalmente se enxerga o mundo através das telas. Em vez de entender a visão como função passiva, a oficina a tratou como prática ativa, situada e treinável.

Essa pedagogia do olhar foi aprofundada quando a oficina propôs a observação do presente. Os participantes foram convidados a olhar para objetos à sua frente, sustentar a atenção, perceber o que existe ao redor e, sobretudo, admitir uma inversão poética e conceitual: não apenas olhar os objetos, mas permitir que os objetos também os “vissem”. Essa formulação desloca a fotografia do simples enquadramento de coisas para uma relação mais complexa entre sujeito, ambiente e presença. A imagem deixa de ser um ato de extração e passa a ser um campo de encontro.

No segundo encontro, o foco se concentrou de maneira mais direta na luz. A proposta prática de fotografar o mesmo lugar em horários diferentes fez com que os participantes observassem variações de intensidade, sombra, incidência, contraste e transformação atmosférica. O exercício evidenciou que a luz não é um detalhe técnico secundário, mas uma condição decisiva da imagem. Ao relatar suas experiências, os participantes passaram a notar o deslocamento do sol, a diferença entre manhã, tarde e noite, a interferência de prédios e janelas, a resposta das plantas à luminosidade e o modo como a luz reorganiza a paisagem visível. A oficina, assim, conduziu a uma aprendizagem concreta: fotografar é também aprender a ler o comportamento da luz no espaço.

Outro eixo importante foi a desnaturalização do automatismo técnico. Em um momento do segundo encontro, a mediação explicitou que mesmo as câmeras de celular, embora automatizadas, não “pensam” sozinhas. É preciso indicar à câmera onde está a atenção, tocar na área de interesse, ajustar a exposição e compreender que toda fotografia resulta de uma decisão humana. Essa afirmação reposiciona o participante diante do equipamento: em vez de confiar cegamente na automação, ele é chamado a assumir a responsabilidade estética e perceptiva pela imagem produzida. A técnica, nesse contexto, não aparece como domínio frio de aparelho, mas como extensão de uma intenção sensível.

O terceiro encontro ampliou ainda mais essa perspectiva ao associar fotografia e mensagem. A atividade propôs que os participantes observassem imagens em redes sociais com mais vagar, buscando compreender enquadramentos, detalhes, escolhas de linguagem e modos de exposição de si. A orientação era clara: olhar com atenção para perceber que toda foto traz vestígios de uma intenção e de uma pessoa por trás da câmera. Mais do que produzir imagens “bonitas”, o trabalho convidava a perguntar o que uma imagem mostra, o que ela oculta e que tipo de mundo ela constrói.

Nesse momento, torna-se visível uma das maiores contribuições da oficina: ela propõe uma alfabetização do olhar em um contexto saturado de imagens rápidas. Ao pedir que os participantes observassem fotografias para além do consumo instantâneo, a atividade criticou implicitamente a lógica das redes sociais, em que as imagens costumam ser vistas sem pausa, sem leitura e sem elaboração. A oficina respondeu a esse cenário com um método oposto: desacelerar, sustentar a atenção, reparar nos detalhes, investigar os sentidos possíveis e reconhecer que ver exige mais tempo do que simplesmente passar os olhos.

Os depoimentos dos participantes mostram que esse deslocamento metodológico teve efeitos concretos. Ao longo dos encontros, surgiram relatos de maior atenção à paisagem cotidiana, à posição da luz, às plantas, às janelas, aos objetos do trabalho, ao que está atrás do corpo e ao que normalmente passa despercebido. Houve quem percebesse o sol caminhando enquanto trabalhava; quem notasse mudanças sutis na imagem de um mesmo cenário ao longo do dia; quem passasse a procurar, no cotidiano, uma imagem capaz de traduzir uma mensagem ou uma sensação. A oficina não ensinou apenas a fotografar; ensinou a notar.  

Por isso, Através da Câmera pode ser compreendida como uma experiência formativa marcada pelas condições impostas pela pandemia de Covid-19, período em que a mediação pelas telas, o isolamento social e a restrição dos deslocamentos redefiniram a relação das pessoas com o espaço, com o corpo e com a imagem. Nesse contexto, a oficina articulou fotografia, presença e percepção como formas de reativar a atenção em meio ao distanciamento. Seu diferencial esteve justamente em recusar a separação rígida entre técnica e sensibilidade: a luz foi estudada a partir da experiência cotidiana, o enquadramento foi pensado como gesto intencional, e a câmera apareceu não apenas como dispositivo de registro, mas como meio de reconexão com o mundo sensível. Assim, a oficina transformou o ato de fotografar em exercício de consciência do espaço vivido, do tempo suspenso da pandemia, da memória, da atenção e da maneira como cada sujeito podia, mesmo à distância, reconstruir sua presença no mundo.

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